O Porão da Rua do Grito (por Casal Doug Kelly)

O Porão da Rua do Grito (2022), longa-metragem nacional de terror, distribuído pela Lira Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 30 de outubro de 2025, com classificação indicativa 18 anos e 90 minutos de duração.

Dirigido por Sabrina Greve, o filme passa em um casarão antigo localizado no bairro do Ipiranga, em São Paulo. O nome da rua remete ao episódio histórico da independência do Brasil, mas aqui serve como ponto de partida para uma história em que o passado se impõe como força dominante. A trama gira em torno de Jonas (Giovanni De Lorenzi) e Rebeca (Carol Marques da Costa), irmãos que perderam os pais em um incêndio misterioso durante a infância. A sequência inicial, registrada em vídeo caseiro, mostra o aniversário de Jonas interrompido por uma briga entre os pais, culminando na tragédia que os marca profundamente.

Dez anos depois, os dois ainda vivem na mesma casa, agora em companhia da avó debilitada (Eliana Guttman) e de uma criança escondida no porão (Nycolas França). A residência, com suas paredes marcadas pela fuligem, parece congelada no tempo, e os personagens se movem como se estivessem presos a ela. Quando Rebeca tenta vender o imóvel com a ajuda de uma assistente social (Chris Couto), Jonas se opõe, revelando que há segredos que ele não está disposto a abandonar. A relação entre os irmãos sugere dependência e desgaste, mas o roteiro não se aprofunda nesse vínculo.

O casarão funciona como um elemento central, não apenas como espaço físico, mas como extensão dos conflitos internos dos personagens. A presença da avó, imóvel no andar superior, reforça essa sensação de estagnação. O roteiro faz referências a contos clássicos e filmes de terror de Hollywood, e aposta em uma atmosfera de reclusão e inquietação. No entanto, os personagens principais não são desenvolvidos com a mesma complexidade que o espaço que habitam.

Giovanni De Lorenzi entrega um Jonas à beira do esgotamento, com uma atuação marcada por tensão. Carol Marques da Costa, por sua vez, adota uma abordagem mais contida, o que torna Rebeca menos acessível ao público. Nycolas França, como o garoto do porão, aparece de forma mecânica em vários momentos, sem grande expressividade.

A fotografia de Marcelo Trotta destaca os elementos da casa como pontos de ameaça e memória. Alguns efeitos visuais não alcançam o impacto desejado, mas a trilha sonora de Mateus Alves contribui para o clima de inquietação, com sons agudos e ruídos que reforçam a sensação de alerta. A direção utiliza movimentos de câmera lentos para explorar os espaços, criando uma cadência que favorece a tensão.

O Porão da Rua do Grito apresenta uma proposta que busca explorar o terror a partir de traumas e espaços marcados por ausências. Embora não alcance uma estrutura narrativa sólida nem aprofunde seus personagens com consistência, o filme representa uma tentativa de abordar o gênero com elementos próprios da realidade brasileira. É um trabalho que aponta caminhos e sugere que há muito a ser explorado nesse território.

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