Resenha | A Terra dos Condenados de Bruna Camargo, Caio Rennery, Jéssica Milato e Lucas Matheus

Composto por oito contos, o livro “A Terra dos Condenados” funciona como um caleidoscópio do horror brasileiro, onde cada história é um fragmento de um pesadelo maior e interconectado.

A grande força do livro reside na sua estrutura. Não se trata de contos soltos, mas de peças de um mesmo quebra-cabeça macabro. O elemento unificador é a “terra” em si – uma entidade viva, corrupta e amaldiçoada que, sob a forma de uma árvore ancestral, raízes malignas ou uma simples casa, consome a dor, o sofrimento e os pecados daqueles que nela habitam ou são por ela atraídos.

A maldição que ocorre no primeiro conto, não é um evento isolado; é a gênese, o veneno primordial que contamina o solo e ecoa através dos séculos, conectando todas as histórias. A obra explora a ideia de que o mal não é um visitante ocasional, mas uma força geográfica e espiritual, tão real e inescapável quanto o próprio terreno.

A antologia inclui os seguintes contos:

1) “1534” – Amaru, uma jovem da aldeia Yanomami, foi prometida desde o nascimento ao deus Anhangá em troca da prosperidade e paz de seu povo. Adorada por todos, ela cresceu consciente de seu destino sagrado. No entanto, aos dezesseis anos, ela conhece Diego, um explorador espanhol, e os dois se apaixonam, iniciando um romance proibido.

Um conto fundacional, que estabelece o mito de origem da terra amaldiçoada. A narrativa bebe do realismo mágico e da tragédia grega, onde um pacto quebrado com uma entidade primordial desencadeia uma maldição eterna. A dor de Amaru não é apenas pessoal; é coletiva, impregnando a terra e tornando-a um ser faminto por dor. O final é devastador, com a maldição verbalizada tornando-se uma profecia auto-realizável, estabelecendo o tom de desespero que permeia o livro.

2) “1848” – Eupásia é uma mulher escravizada, grávida, que decide fugir da propriedade onde vive após o amor de sua vida, Ganga, ser torturado e assassinado brutalmente pelo senhor do engenho. Durante sua tentativa de buscar a liberdade, o mal humano e, também, uma entidade sobrenatural, cruzarão seu caminho.

Uma mudança de tom brutal – do mítico para o histórico e socialmente arraigado – ao transportar o leitor para o horror real da escravidão. O sobrenatural aqui é uma metáfora para a desumanização e a violência extrema do sistema da época. A personificação de uma sociedade que suga a vida e a esperança dos oprimidos. É a prova que o horror mais eficaz é aquele enraizado em traumas reais.

3) “1918” – O padre Jonas, recém-ordenado, chega cheio de fervor para assumir a Comunidade Católica de Santo Antônio, uma igreja nova construída em um terreno doado e isolado. Desde a primeira noite, sua estadia é assombrada por um pesadelo recorrente: um homem gritando e uma criança chorando.

Aqui, o horror é institucional e espiritual. Uma narrativa lenta e atmosférica que mina a fé em suas bases. O terreno amaldiçoado agora é um solo “sagrado”, uma igreja, e o mal se esconde sob o véu da religião. A luta do Padre Jonas não é contra um demônio convencional, mas contra uma entidade territorial muito mais antiga e insidiosa. Mostra como o horror pode ser uma força burocrática e paciente, corrompendo instituições de dentro para fora.

4) “1963” – Clara é uma jovem internada no colégio religioso Santa Maria das Graças. Ela é vista como problemática pelas freiras devido ao seu passado marcado por abandono e dor. Sua estadia na escola torna-se um pesadelo quando começa a ter visões aterrorizantes: o crucifixo da capela ganha vida, e a figura de Jesus, com olhos de profunda tristeza, lhe dirige a pergunta “Por que me abandonaste?”. Sombras sinistras se contorcem nas paredes, e fenômenos sobrenaturais assolam a escola.

Um conto sobre o colapso da fé pessoal. O cenário claustrofóbico do internato religioso é o palco perfeito para uma crise de identidade e crença. O horror aqui é psicológico e teológico: e se Cristo não apenas estivesse morto, mas seu sofrimento fosse a fonte do mal? O abandono e a solidão são explorados de forma brutal, mostrando que, para alguns, a escuridão é a única resposta.

5) “1982” – Joana, uma mulher que sofre com alucinações auditivas e visuais desde a infância, decide se internar voluntariamente em um hospital psiquiátrico notório e decadente na esperança de tratar sua suposta loucura.

Uma incursão profunda no horror gótico e de asilo. Uma história que questiona a própria sanidade e os limites da percepção. A instituição psiquiátrica é um microcosmo da terra amaldiçoada: um lugar onde a sociedade esconde o que não quer ver, e onde o mal pode se alimentar impunemente.

6) “2000” – Na noite de Réveillon, em plena virada do milênio, o trio de amigos Clarissa, Leonardo e Ester vão comemorar no parque de diversões Millenium. Clarissa, já apreensiva com os temores de um “bug” que poderia causar o caos mundial, é a única do grupo que sente que algo está errado.

O horror trazido para a era do entretenimento e do medo coletivo (o Bug do Milênio). A sombra que se alimenta do sofrimento alheio em um parque de diversões é uma metáfora para a natureza predatória e sádica de certas forças malignas. Seria um “monstro de filme B” elevado a um patamar literário, mostrando como a entidade da terra pode se adaptar e prosperar no caos e no medo modernos.

7) “2005” – Jonas é um menino que se mudou com os pais para uma nova casa, em uma tentativa de seu genitor de recomeçar a vida após crises de alcoolismo e violência doméstica. Na nova casa, Jonas encontra um estranho objeto de madeira, disforme e tosco, no quintal.

Um dos contos mais perturbadores do livro, onde se fundem o horror doméstico (o trauma do alcoolismo e abuso paterno) com o sobrenatural. A criatura dentada, com suas múltiplas bocas é a manifestação física do trauma, do pecado hereditário e da maldição que se repete dentro de uma família. Um menino sendo literalmente consumido pelo monstro que seu pai se tornou.

8) “2024” – Thiago é um jovem que faz parte de um canal no YouTube sobre lugares assombrados, junto com seu ex-namorado, Heitor, e a roteirista Laura. Apesar da dor recente do término, eles decidem investigar uma casa abandonada notória por atividades paranormais.

O conto que fecha o ciclo traz o horror para a era digital, com youtubers de caça-fantasmas. A obra se encerra com autoridade, trazendo desesperança ao afirmar que o mal é um ecossistema autossustentável. A narrativa usa a linguagem moderna (vlogs, câmeras) para mostrar que o mal é atemporal e sempre encontrará novas formas de se manifestar e se alimentar.

CONCLUSÃO: “A Terra dos Condenados” é uma obra 100% nacional. A sequência dos contos não é aleatória; trata-se de uma jornada calculada através de diferentes facetas do mesmo terror. A colaboração entre os autores – Bruna Camargo, Caio Rennery, Jéssica Milato e Lucas Matheus – resulta em uma leitura que, poderia, facilmente, se tornar uma reflexão sobre o trauma, a culpa, a fé e a natureza resiliente do mal. Ele afirma, com veemência, que alguns lugares estão além da redenção, não por causa de fantasmas, mas porque o solo em que pisamos pode estar intoxicado com a dor de todos que vieram antes de nós. É uma leitura rápida, recomendada para apreciadores do gênero.


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