Rosario (por Casal Doug Kelly)

Rosario (2025), longa-metragem estadunidense de terror, distribuído pela Imagem Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 28 de agosto de 2025, com classificação indicativa 14 anos e 88 minutos de duração.

Filmes com elementos sobrenaturais estão por toda parte, mas poucos conseguem ir além do susto fácil. Os que realmente deixam marcas são aqueles que usam o estranho para falar sobre o que é familiar — solidão, culpa, perda — e fazem com que o espectador se sinta desconfortável não pelo que aparece na tela, mas pelo que ela sugere sobre a vida fora dela. “Rosario” tenta seguir por esse caminho, mas não consegue manter o ritmo.

Rosario aparece pela primeira vez ainda criança (Emilia Faucher), vestida de branco para sua primeira comunhão, cercada por uma família que carrega o peso da migração. Mas o clima está longe de ser festivo. Sua mãe, Elena (Diana Lein), tosse sem parar, aparentando estar à beira do colapso. Seu pai, Oscar (José Zúñiga), com o olhar perdido, já projeta preocupações sobre o futuro da filha. E a avó, Griselda (Constanza Gutierrez), vive trancada no quarto, como se escondesse algo — ou alguém. Quando Rosario inicia sua cerimônia, o ambiente se transforma (graças a diretora de fotografia Carmen Cabana) e Griselda aparenta estar lá, mas não exatamente… presente.

Anos depois, Rosario (Emeraude Toubia) cresceu e virou uma profissional de sucesso, com um lar sofisticado e uma vida onde parece ter abandonado suas raízes. Mas o passado a alcança. As ligações de sua avó se tornam insistentes, e quando resolve atender, uma notícia interrompe tudo: Griselda morreu, e devido a sua ilegalidade no país, alguém precisa vigiar o corpo até que a ambulância chegue. Como se isso já não fosse estranho o suficiente, uma nevasca bloqueia a cidade, e Rosario se vê presa em um cenário que parece saído de um pesadelo.

Ao entrar no antigo apartamento da avó, o filme mergulha de cabeça no grotesco. O prédio está em ruínas, o elevador parece ter sobrevivido a uma guerra, e o interior do lar é um festival de podridão — comida vencida, insetos por todos os cantos, e um corpo em decomposição no sofá. O cheiro quase atravessa a tela. E os vizinhos não ajudam: Joe (David Dastmalchian), é um sujeito esquisito e inconveniente, que diz querer sua fritadeira air-fryer de volta, como se nada mais importasse.

Enquanto Rosario explora o apartamento, descobre que Griselda praticava Palo, uma religião afro-caribenha envolta em mistério. É aí que o filme tenta se aprofundar no terror: aparições, rituais, segredos enterrados e mãos que surgem de onde não deveriam. Os efeitos práticos são bem executados, mas a direção de Felipe Vargas e o roteiro de Alan Trezza não escapa dos clichês. As sombras no fundo, os sustos previsíveis, e a falta de explicação sobre a religião tornam tudo genérico. Rosario, perdida, recorre ao Google para entender como quebrar uma maldição (então tá, né!).

Só no final o filme encontra um fio mais interessante: a história da família, sua travessia para os Estados Unidos, os sacrifícios e os traumas que ficaram. Esse trecho traz uma densidade que o restante da trama não alcança, revelando que o verdadeiro terror talvez esteja nas memórias e nas escolhas que moldam quem somos.

Apesar da ótima atuação de Emeraude Toubia (com suas falas e tentativas de humor ou sarcasmo divertindo quem assiste), isso não é o suficiente para preencher as lacunas da produção. Mas o pior é a subutilização de David Dastmalchian, um talento do gênero, desperdiçado em um papel que exige pouco mais que tossir e fazer exigências banais.

Apesar dos tropeços, “Rosário” tem um ritmo enxuto e não se arrasta. Os aspectos visuais são bem cuidados, e há potencial até para uma continuação, caso seus criadores ignorem o final dado. Se Vargas e Trezza conseguirem se afastar das fórmulas genéricas, continuando a aprimorar os elementos que funcionaram neste filme, poderão mergulhar mais fundo nas histórias que realmente querem contar, podendo até surpreender no futuro.

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