A Vida de Chuck (por Peter P. Douglas)

A Vida de Chuck (The Life of Chuck, 2024), longa-metragem estadunidense dramático, distribuído pela Diamond Films, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 04 de setembro de 2025, com classificação indicativa 12 anos e 110 minutos de duração. Inspirado no conto homônimo, escrito por Stephen King, presente na coletânea: “Com Sangue” (2020).

O diretor Mike Flanagan, que já mostrou domínio em adaptar Stephen King com “Doutor Sono” (2019) e “Jogo Perigoso” (2017), mergulha aqui num dos textos mais incomuns do autor — uma história contada de trás pra frente, dividida em três atos que revelam a vida de Charles Krantz (Chuck) por meio de fragmentos, memórias e momentos aparentemente desconectados.

O filme começa com o fim do mundo. Literalmente. Mas não é um apocalipse explosivo — é silencioso, melancólico, quase poético. Chiwetel Ejiofor interpreta Marty, um professor que observa o colapso da realidade enquanto outdoors e transmissões começam a agradecer a um tal de Chuck por “39 ótimos anos”. Essa primeira parte é carregada de mistério e emoção, com uma atmosfera que mistura fim de ciclo com gratidão inexplicável. É como se o universo estivesse se despedindo de alguém que nem todos conhecem, mas que, de alguma forma, importa.

No segundo ato, Tom Hiddleston finalmente aparece como Chuck, agora um contador comum, lidando com problemas cotidianos. E aí vem uma das cenas mais inesperadas e bonitas do filme: ele começa a dançar no meio da rua, ao som de uma baterista (interpretada pela incrível Taylor Gordon), e é acompanhado por uma desconhecida. É um momento de pura alegria, sem explicação, que quebra qualquer expectativa. Hiddleston está leve, carismático, e a cena tem uma energia quase mágica — como se a dança fosse a única forma de expressar tudo o que ele não consegue dizer.

O último ato volta à infância de Chuck, vivido por Benjamin Pajak e Jacob Tremblay, e aí o filme se torna mais introspectivo. Ele mora com os avós (Mark Hamill e Mia Sara), –  após a morte de seus pais – numa casa antiga com uma torre misteriosa, e começa a descobrir sua paixão pela dança, influenciado pela avó. Essa parte tem um tom de conto de fadas, com toques sobrenaturais e uma ternura que contrasta com o peso do início. É aqui que o filme tenta costurar tudo — a infância, a dança, o mistério do universo — e embora nem tudo se encaixe perfeitamente, há uma honestidade emocional que sustenta tudo.

Flanagan não tenta fazer um filme “normal”. Ele abraça o sentimentalismo, a estranheza e a simplicidade do conto de King. E isso pode dividir o público. Tem quem vai achar piegas, tem quem vai achar genial. Mas é difícil sair indiferente. “A Vida de Chuck” é sobre como cada vida, por mais comum que pareça, pode ser extraordinária. E sobre como os pequenos momentos — uma dança, uma conversa, um gesto — podem ter um alcance muito além do que possamos imaginar.

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