Filhos (por Peter P. Douglas)

Filhos (Vogter AKA Sons, 2024), longa-metragem francês dramático, distribuído pela Mares Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 31 de julho de 2025, com classificação indicativa 14 anos e 100 minutos de duração.

Trata-se de um filme que não grita — aperta. O diretor Gustav Möller (“Culpa”, 2018) constrói uma narrativa que parece simples, mas vai se tornando cada vez mais desconfortável. Eva, a protagonista, é agente penitenciária e vive uma rotina controlada, quase mecânica, até que um novo detento é transferido para o presídio onde ela trabalha. O detalhe que muda tudo: ele é o homem condenado pelo assassinato do filho dela.

A partir daí, o filme deixa de ser sobre regras e vira sobre limites. Eva começa a se aproximar do preso, Mikkel, não por empatia, mas por uma necessidade de confrontar o que ela perdeu. O ambiente da prisão é frio, silencioso, cheio de corredores estreitos e portas pesadas — e isso não é só cenário, é extensão do estado emocional dela. A câmera acompanha de perto, quase sufocando, e os sons são mínimos: passos, portas, respiração. Tudo parece prestes a explodir, mas nunca explode de verdade.

Sidse Babett Knudsen entrega uma atuação que não precisa de grandes gestos. Ela carrega a dor no olhar, no jeito de andar, na forma como hesita antes de falar. Eva não é uma mulher em busca de vingança explícita — ela está tentando entender se ainda existe alguma justiça possível. E quando começa a usar sua posição para punir Mikkel de forma seletiva, o filme entra num território ético complicado. Ela planta drogas na cela dele, o agride, e tudo isso é registrado pelas câmeras. A partir daí, as posições se invertem: Mikkel passa a chantageá-la, e o poder muda de mãos.

O roteiro não oferece respostas fáceis. Não há vilões claros, nem redenção garantida. O que existe é uma tensão constante entre o que é certo e o que é suportável. A prisão vira um campo de batalha emocional, onde cada gesto tem peso simbólico. E o filme não tenta resolver isso — ele só mostra.

Visualmente, o longa é contido, quase seco. A paleta de cores é apagada, os espaços são fechados, e a sensação de claustrofobia é constante. A trilha sonora praticamente não existe, o que faz com que cada silêncio seja ainda mais incômodo. É um filme que exige atenção, porque tudo está nos detalhes: no que não é dito, no que é evitado, no que se repete. No fim, o que fica é a pergunta: até onde alguém pode ir quando a dor é maior que a razão?

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