
Atena (2024), longa-metragem nacional de suspense policial dramático, distribuído pela A2 Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 31 de julho de 2025, com classificação indicativa 16 anos e 89 minutos de duração, dirigido por Caco Souza.
Filme que não pede licença —entra, incomoda e deixa marcas. A história gira em torno de uma mulher marcada por abusos na infância, que decide fazer justiça com as próprias mãos. Mel Lisboa interpreta essa protagonista com uma mistura de fragilidade e fúria contida. Ela não é uma heroína clássica, nem uma anti-heroína estilizada. É alguém que carrega dor e transforma isso em ação, mesmo que essa ação seja violenta, extrema e fora da lei.
A cidade de Gramado, normalmente associada a festivais e turismo, vira palco de crimes brutais. A palavra “estuprador” queimada no corpo de uma vítima já diz muito sobre o tom do filme. Não há espaço para sutileza. A fotografia escura reforça esse clima pesado, quase sufocante. E mesmo que isso prejudique a compreensão visual em algumas cenas, ajuda a construir a atmosfera de tensão constante.
Thiago Fragoso vive Carlos, um jornalista que começa a investigar os assassinatos e acaba descobrindo a existência de Atena. Ele funciona como ponte entre o público e a protagonista, tentando entender o que a move. A investigação dele é um pouco conveniente demais em alguns momentos, mas serve para costurar a narrativa. Gilberto Gawronski aparece como o pai de Atena, figura central do trauma que ela carrega. Quando ela descobre que ele está vivo e morando no Uruguai, o filme muda de tom — deixa de ser sobre justiça e passa a ser sobre confronto direto com o passado.
O roteiro não inventa muito. A estrutura é conhecida: trauma, vingança, revelação, embate final. Mas o que dá força ao filme é a forma como ele trata esses elementos. Atena não é uma personagem que busca redenção. Ela quer eliminar o mal pela raiz, mesmo que isso a destrua no processo. E o filme não tenta suavizar isso. Há cenas de luta corporal intensas, e Mel Lisboa se entrega fisicamente ao papel. Ela seduz, ataca, marca suas vítimas com ferro quente. É brutal, mas não gratuito.
Há também uma camada política sutil. Um policial que ajuda Atena insinua que existe um “acordo de cavalheiros” entre autoridades locais para eliminar agressores que escapam da justiça. Isso levanta uma questão incômoda: quando o sistema falha, quem assume o papel de juiz? O filme não responde, só joga a pergunta no ar.
No fim, “Atena” é sobre uma mulher que não quer mais esperar por justiça. Ela age. E essa ação, por mais violenta que seja, nasce de um lugar legítimo. O filme não é perfeito — tem limitações de orçamento, alguns atalhos narrativos e uma resolução apressada — mas tem coragem. E às vezes, coragem é o que mais falta no cinema.










