
Luiz Gonzaga – Légua Tirana (2025), longa-metragem nacional biográfico, distribuído pela O2 Play Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 07 de agosto de 2025, com classificação indicativa 14 anos e 113 minutos de duração.
O filme não é apenas uma cinebiografia — é uma viagem afetiva e sensorial pelas raízes do Brasil profundo. Dirigido por Diogo Fontes e Marcos Carvalho, o longa mergulha na infância e juventude de Gonzagão, não como uma sequência de eventos, mas como uma construção de identidade. A escolha de focar nos primeiros anos do artista é certeira: é ali, entre o barro do sertão e os sons da sanfona, que nasce o Rei do Baião.
O filme evita o didatismo típico de biografias musicais. Em vez de listar conquistas, ele se dedica a entender o que moldou Luiz Gonzaga — o menino retirante de Exu (PE), o filho de Januário, o jovem que carregava o sertão no peito antes mesmo de saber que o transformaria em música. A narrativa é fragmentada, quase poética, e se apoia em imagens fortes: paisagens áridas, festas populares, silêncios que dizem mais que palavras.
A fotografia é um dos pontos altos. Filmado na Chapada do Araripe e em Caiçara (PB), o filme valoriza a textura da terra, o calor da luz nordestina, os rostos marcados pelo tempo. É um Brasil que raramente aparece no cinema com tanta dignidade e beleza. A trilha sonora, claro, é um personagem à parte, pela forma como os sons do cotidiano se misturam à composição da atmosfera: o chiado do rádio, o canto da feira, o batuque improvisado.
O elenco é afiado. Kayro Oliveira, Wellington Lugo e Chambinho do Acordeon interpretam Gonzaga em diferentes fases, e há uma continuidade emocional entre eles que funciona. Luiz Carlos Vasconcelos como Januário traz uma presença quase mítica, e Cláudia Ohana e Tonico Pereira completam o time com atuações sólidas. Mas o filme não depende de grandes momentos dramáticos — ele aposta na delicadeza, no tempo estendido, na contemplação.
O que o filme faz de melhor é conectar a trajetória de Gonzaga à cultura nordestina como um todo. Ele não é tratado como um gênio isolado, mas como fruto de um caldo cultural complexo — religioso, étnico, histórico. A música dele é apresentada como linguagem coletiva, como resistência, como memória. E isso dá ao longa uma força que vai além da biografia: é um manifesto sobre pertencimento.
Claro, há momentos em que o ritmo desacelera demais, e algumas passagens poderiam ser mais enxutas. Mas isso parece parte da proposta: deixar o espectador respirar o sertão, sentir o tempo passar como ele passa lá. Não é um filme para quem busca agilidade — é para quem quer se deixar atravessar.










