Em Rumo A Uma Terra Desconhecida (por Peter P. Douglas)

Em Rumo a Uma Terra Desconhecida (Vers Un Pays Inconnu AKA To A Land Unknown, 2024), longa-metragem dramático da Grã-Bretanha, distribuído pela Imovision, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 15 de maio de 2025, com classificação indicativa 16 anos e 106 minutos de duração, inspirado pelo livro “Men in the Sun”, escrito por Ghassan Kanafani.

“Em Rumo a Uma Terra Desconhecida” é um filme que não se apressa em oferecer respostas fáceis. Dirigido por Mahdi Fleifel, ele acompanha dois primos palestinos, Chatila e Reda, vivendo como refugiados em Atenas, tentando juntar dinheiro para comprar passaportes falsos e seguir rumo à Alemanha. O plano é abrir um café e começar uma vida nova, mas o caminho até lá é marcado por pequenos crimes, prostituição e decisões que vão corroendo a identidade dos dois.

O filme tem uma pegada realista, com câmera discreta e planos longos que acompanham os personagens sem interferir. A estética lembra o estilo dos irmãos Dardenne — aquela câmera que segue os protagonistas pelas ruas, pelos becos, pelos quartos apertados. A fotografia é contida, sem grandes efeitos, e a trilha sonora aparece mais como ruído ambiente do que como elemento dramático. Tudo isso reforça a sensação de que estamos observando, quase em tempo real, a rotina de dois homens tentando sobreviver.

Mahmood Bakri e Aram Sabbah entregam atuações muito sólidas. A relação de seus personagens é cheia de nuances: são primos, mas também parceiros, cúmplices e, em alguns momentos, quase estranhos um ao outro.

Chatila parece mais frio, mais prático, enquanto Reda carrega um conflito interno que vai se intensificando — especialmente quando se envolve com drogas e começa a questionar o que estão fazendo. Há uma cena em que ele conversa com um garoto palestino e diz que talvez eles sejam “pessoas ruins”. É um momento simples, mas que revela muito sobre o peso moral que ele carrega.

O filme evita vilões claros. Não há uma figura opressora única — o sistema, a cidade, a condição de refugiado, tudo isso forma um ambiente hostil que empurra os personagens para escolhas difíceis. E embora o roteiro não se aprofunde nas causas políticas da crise migratória, ele deixa claro que o desespero é o motor de tudo. A Europa aparece como um lugar que não acolhe, mas também não expulsa — apenas deixa os personagens à deriva.

Na reta final, o filme muda de tom. A luz diminui, os planos ficam mais escuros, e a narrativa se torna mais tensa. Há uma sequência dentro de um túnel que resume bem o clima: os personagens estão literalmente e simbolicamente no escuro, sem saber se vão sair do outro lado. O desfecho não é otimista, mas também não é cínico. Ele reconhece que, para muita gente, a esperança é uma ideia distante — e que sobreviver já é, por si só, um ato de resistência.

 “Em Rumo a Uma Terra Desconhecida” não tenta agradar. É um filme que incomoda, que provoca, e que mostra como o desejo de recomeçar pode exigir sacrifícios profundos. Ele não é sobre heróis nem sobre vilões — é sobre pessoas tentando encontrar algum sentido em meio ao caos.

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