A Prisioneira de Bordeaux (por Peter P. Douglas)

A Prisioneira de Bordeaux (La Prisonnière de Bordeaux AKA Visiting Hours, 2024), longa-metragem francês de comédia dramática, distribuído pela Autoral Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 07 de agosto de 2025, com 108 minutos de duração.

Filme que parece simples à primeira vista, mas vai se revelando aos poucos como um estudo delicado sobre relações humanas, desigualdade e o peso das escolhas. A diretora Patricia Mazuy constrói a história a partir de um encontro casual entre duas mulheres em uma sala de visitas de uma prisão: Alma (Isabelle Huppert), uma ex-bailarina burguesa, e Mina (Hafsia Herzi), uma jovem mãe que vive nos subúrbios e enfrenta dificuldades para sustentar os filhos enquanto o marido cumpre pena.

O que começa como um gesto de gentileza — Alma oferecendo carona e depois abrigo a Mina — se transforma em uma convivência cheia de camadas. A diferença de classe entre elas é evidente, mas Mazuy evita cair em estereótipos fáceis. Alma não é uma salvadora, e Mina não é uma vítima passiva. Há momentos em que a relação parece genuína, outras vezes ela se torna incômoda, quase invasiva. O filme não tenta resolver essas tensões, apenas as apresenta com honestidade.

Isabelle Huppert está no seu território: uma personagem cheia de contradições, que oscila entre afeto e controle. Hafsia Herzi, por outro lado, traz uma energia mais contida, mas igualmente forte. Mina é uma mulher que aprendeu a se proteger, e Herzi transmite isso com gestos mínimos, olhares curtos, silêncios bem colocados. As duas atrizes criam uma dinâmica que nunca é previsível — há cumplicidade, mas também desconforto.

Visualmente, o filme é elegante sem ser exibicionista. A fotografia de Simon Beaufils usa cores quentes e composições cuidadosas para criar uma atmosfera que parece acolhedora, mas esconde tensão. A trilha de Amine Bouhafa acompanha esse tom, com momentos discretos e outros mais intensos, sem exagerar.

O roteiro, escrito por Mazuy com Pierre Courrège e François Bégaudeau, não se preocupa em entregar respostas. Ele constrói situações e deixa que o público tire suas próprias conclusões. A amizade entre Alma e Mina é real? É interesse? É carência? Talvez seja tudo isso ao mesmo tempo. E quando o filme chega ao seu desfecho — com uma virada que não é exatamente surpreendente, mas funciona — o que fica é a sensação de que essas duas mulheres, por mais diferentes que sejam, compartilham uma mesma prisão: a dos papéis que lhes foram impostos.

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