
“Dá Trabalho!” é uma peça que não se esconde atrás de metáforas nem tenta suavizar o que está dizendo. Ela olha diretamente para o cotidiano corporativo e pergunta, sem rodeios: o que estamos fazendo com nossas vidas em nome do trabalho?
A estrutura da peça é simples, mas eficaz. Acompanhamos dois personagens — Humberto e Bartira — em três momentos distintos: 2008, 2018 e 2025. Em cada um desses recortes, os papéis se invertem, mas o desgaste emocional permanece. O que muda é o discurso da época: antes era sobre ascensão profissional, depois sobre autocuidado e propósito, e agora sobre sobrevivência emocional. O texto de Juliana Rosenthal acerta ao mostrar como o vocabulário muda, mas o cansaço continua.
O que torna “Dá Trabalho!” interessante é que ela não se limita a contar uma história. Ela provoca. A encenação, dirigida por Cris Wersom, Paulo Azevedo e Rosenthal, tem um ritmo que alterna entre o frenético e o suspenso — como uma reunião que começa com pressa e termina em silêncio constrangedor. A trilha sonora de Dan Maia e o desenho de luz de Cesar Pivetti ajudam a criar esse clima de tensão constante, sem cair no exagero.
O cenário de André Cortez é funcional e simbólico. A sala de entrevista, onde tudo se passa, vira um espaço de espera, de julgamento, de memória. É um lugar onde os personagens se confrontam com o que foram e com o que talvez nunca tenham sido. A atuação dos protagonistas Cris Wersom e Paulo Azevedo é precisa: eles não tentam ser heróis nem vítimas, apenas pessoas tentando se manter inteiras num sistema que exige que se quebrem um pouco todos os dias.
A peça também acerta ao não oferecer respostas fáceis. Não há vilão claro, nem solução mágica. O que existe é um convite à reflexão — sobre saúde mental, sobre relações de poder, sobre a ilusão de que dar conta de tudo é sinal de sucesso. E o humor, que aparece em momentos pontuais, não serve para aliviar a tensão, mas para escancarar o absurdo de certas situações que já normalizamos.
“Dá Trabalho!” não é uma peça sobre o trabalho. É sobre o que o trabalho faz com a gente. E assistir a ela é como se olhar no espelho depois de um dia exaustivo: você pode até rir, mas vai sair pensando.
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