
Buzzheart (2024), o novo filme, grego-estadunidense, dirigido por Dennis Iliadis, mergulha, em seus 110 minutos de duração, naquele tipo de desconforto estranho que parece ter virado marca registrada de parte do cinema grego dos últimos anos.
Ambientado na Atenas de 1995, o longa acompanha Argyris, um garoto de 18 anos que entra num relacionamento inesperado com Mary, uma garota de aparência sofisticada e com uma família ainda mais peculiar. Quando ela o leva para passar um fim de semana na casa de campo dos pais, o que começa como algo romântico e inocente rapidamente vira um pesadelo cheio de regras absurdas, agressões sutis e uma espécie de teste brutal travestido de proteção.
A trama prende, mesmo que algumas viradas sejam previsíveis. O jogo entre o que é real e o que pode ser alucinação aparece com frequência, mas o filme não se perde nisso. Ainda que a narrativa não invente nada de muito novo, ela mantém o interesse ao revelar aos poucos os segredos por trás daquele ambiente desconcertante. A sensação de que tudo ali está fora do lugar vem não só do comportamento dos personagens, mas de detalhes visuais — brinquedos mal colocados, uma privada com plantas brotando, a trilha incômoda de Coti K, a iluminação sombria, os ângulos de câmera meio tortos que reforçam a sensação de ameaça.
O elenco acerta na medida. Claudio Kaya (nascido na Albânia e criado na Grécia) convence como o adolescente sem saída, fragilizado, mas tentando manter alguma dignidade. Konstantina Messini entrega uma Mary enigmática e vulnerável. Evelina Papoulia e Giorgos Liantos (Sandra e George) são assustadoramente convincentes como os pais que misturam rigidez e crueldade, sem perder o sorriso no rosto. O ponto final da história também funciona — não é um daqueles desfechos que deixa tudo em aberto só para parecer “profundo”. Iliadis resolve o arco de forma satisfatória, mesmo mantendo a estranheza até o último minuto.
Não dá pra dizer que “Buzzheart” reinventa o gênero, nem que rompe com os filmes que vieram antes — especialmente os que carregam o DNA mais esquisito e provocativo de diretores como Yorgos Lanthimos. Mas Iliadis sabe criar atmosfera e tem olho para composições visuais que te deixam desconfortável. O que falta, talvez, é um roteiro com mais ousadia ou uma ideia central mais marcante. Ainda assim, dentro do que se propõe, o filme cumpre bem seu papel: é estranho, tenso, e causa aquele tipo de inquietação que te faz pensar duas vezes antes de aceitar um convite para conhecer os pais da namorada.











