Branca de Neve (por Peter P. Douglas)

            Branca de Neve (Snow White, 2025), longa-metragem estadunidense infantil, distribuído pela Walt Disney Company, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 20 de março de 2025, com classificação indicativa 10 anos e 109 minutos de duração.

            O desenho animado original de 1937, Branca de Neve e os Sete Anões, foi rotulado como “loucura da Disney”” antes do lançamento, mas logo se tornou um marco artístico e sucesso de bilheteria. Esta nova versão live-action, embora igualmente atormentada por repercussões negativas e relatos de caos criativo, parece improvável que tenha um impacto tão duradouro ou significativo. Apesar das performances comprometidas de seus protagonistas e anos de edições e reedições, o filme falha em estabelecer um tom consistente entre seus cenários reais e artificiais.

            O diretor Marc Webb segue de maneira fiel os passos traçados por Kenneth Branagh em Cinderella (2015), atribuindo à protagonista um mantra corajoso e um interesse amoroso que ultrapassa o estereótipo do “príncipe encantado”. A Branca de Neve, interpretada por Rachel Zegler, não espera passivamente por seu príncipe; ela deseja ser uma líder inspiradora para seu povo, reavivar a confiança no contrato social e, com isso, restaurar a empatia entre as pessoas. Embora essa abordagem seja louvável e alinhada com questões políticas atuais, o filme insiste de forma quase excessiva nesse tema, a ponto de parecer que cada frame grita “empoderamento feminino”.

            Ela enfrenta uma Gal Gadot em uma interpretação exagerada como a Rainha Má, adornada com joias e exibindo maldade sem remorso. A narrativa segue os pontos clássicos da história: Branca de Neve perde seus pais virtuosos, mas antes disso, seu pai se casa novamente com uma vilã completa. Logo, ela é relegada ao trabalho como empregada em seu próprio palácio, até que a rainha, tomada pelo ciúme de sua beleza, ordena sua execução. Contudo, Branca de Neve consegue escapar e se refugia com um grupo de pequenos mineiros.

            E, claro, as canções estão presentes, interpretadas lindamente por Zegler, que transita com graça das melodias clássicas (exceto “Someday My Prince Will Come”) para as novas composições de sucesso de Pasek e Paul. Gadot brilha em sua grande performance musical e claramente se diverte encarnando sua vilania.

            O filme ainda traz um toque interessante: os poderes mágicos da Rainha parecem estar ligados à sua beleza, tornando a crescente atratividade de Branca de Neve uma ameaça existencial, e não apenas fruto de ciúmes superficiais.

            Isso tudo tem grande potencial para conquistar o público jovem, especialmente as meninas, graças à energia contagiante de Zegler e sua postura decidida. No estilo clássico de uma “gestora”, ela assobia enquanto delega o trabalho aos outros; embora seja charmosa, não foca tanto em ser simpática. Ainda que os discursos de Branca de Neve às vezes soem como afirmações de autossuficiência, Zegler cumpre sua promessa de entregar uma protagonista mais para líder e com relações melhor desenvolvidas do que a personagem original.

            Os anões, infelizmente, são outro ponto fraco do filme. Com efeitos visuais pouco convincentes, eles desaceleram o ritmo sempre que aparecem, e falta uma harmonia entre a floresta encantada e os cenários reais ou mesmo uma integração dos anões com personagens vivos. Enquanto os designs originais da Disney capturavam o dinamismo da animação clássica, replicar esse estilo em ação “ao vivo” resulta em algo desconcertante.

            A produção também enfrentou críticas por inicialmente considerar atores com nanismo para os papéis e, ao mesmo tempo, negar-lhes a oportunidade de trabalho, deixando os cineastas presos em um dilema sem solução satisfatória. Parece que os companheiros ladrões de Jonathan (Andrew Burnap) foram pensados para substituir o grupo original de anões, mas agora dividem espaço com personagens evidentemente artificiais, que não convencem visualmente ou narrativamente.

            Não há demérito para Zegler, Gadot ou mesmo Webb, que claramente se esforçam para deixar sua marca com diálogos ágeis e momentos de humor. Há cenas e sequências que funcionam maravilhosamente, graças ao talento deles. No entanto, o filme parece limitado e diminuto, como se tivesse sido submetido a uma infinidade de edições e reestruturações até perder sua identidade. A interferência do estúdio é perceptível: hesitação ao incluir os anões, mas também ao excluí-los; receio de focar na protagonista, mas resistência a reinventá-la; incerteza entre abraçar o estilo animado ou apostar no realismo. No final, a Disney parece ter buscado replicar o passado, ao invés de inovar – e talvez isso seja a maior ironia de todas.

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