Maré Alta (por Peter P. Douglas)

            Maré Alta (High Tide, 2024), longa-metragem estadunidense dramático, distribuído pela Retrato Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 20 de março de 2025, com classificação indicativa 16 anos e 104 minutos de duração.

            O emocionante e delicado drama, escrito e dirigido por Marco Calvani, conquista o público em grande parte devido à performance excelente e autêntica de Marco Pigossi. Ele interpreta Lourenço, um brasileiro gay vivendo em Provincetown, cuja vida foi marcada por uma série de abandonos e eventos desafiadores.

            Em Provincetown, Lourenço ganha a vida realizando trabalhos clandestinos como faxineiro e faz-tudo. Após ser abandonado por seu parceiro, Joe, e com o visto de turista prestes a expirar, ele aluga uma pequena casa pertencente a Steve (Bill Irwin), um morador mais velho e gay da cidade litorânea. Em meio à busca por uma maneira de preservar sua recém-conquistada liberdade e evitar retornar à sua vida enrustida no Brasil, Lourenço conhece Maurice (James Bland), um homem atraente na praia. O encontro desperta um tímido flerte, embora ainda não tenha certeza se está pronto para seguir em frente.

            Entre um elenco de nomes conhecidos — como Marisa Tomei, Mya Taylor e Bryan Batt —, a câmera encontra uma conexão especial com o rosto expressivo de Pigossi. Seus olhos carregam uma constante melancolia e dor, adicionando subtexto a cada cena. Há uma ternura em Lourenço que desperta empatia no público, tornando fácil entender por que tantos estranhos se sentem inclinados a ajudá-lo e acolhê-lo em sua jornada.

            A trama, que aborda diversas questões de maneira superficial, acaba ficando em segundo plano em relação à jornada de cura de Lourenço. Durante sua estadia em Provincetown, ele lida com um chefe grosseiro e manipulador, um homem gay mais velho, racista e com comportamento sexualmente predatório, além de enfrentar o preconceito presente dentro da própria comunidade gay. Lourenço também é exposto ao universo das drogas recreativas e ao PrEP, temas para os quais inicialmente parece despreparado, mas que, eventualmente, enfrenta com determinação.

            O sentimental Maurice, um enfermeiro de Nova York, e seu grupo de amigos parecem pertencer a um universo completamente distinto, quase como se tivessem saído de outro filme. Com seus excessos vibrantes, eles envolvem Lourenço em uma maré de irreverência, marcada por brincadeiras internas, frivolidades e momentos descontraídos. Embora proporcionem a distração que ele tanto necessita, eles claramente pertencem a um mundo diferente. Se essa influência é positiva ou não para Lourenço, o filme opta por deixar essa questão em aberto.

            Em sua estreia como cineasta, Marco Calvani não consegue integrar todos os elementos de forma completamente coesa. Embora o relacionamento entre Lourenço e Maurice tenha um ritmo natural e envolvente, o roteiro por vezes escorrega em melodrama e clichês. Alguns personagens parecem existir apenas para gravitar em torno de Lourenço. Apesar disso, o elenco talentoso consegue suavizar esses momentos mais difíceis.

            Embora a narrativa ocasionalmente explore territórios já conhecidos, “Maré Alta” mantém seu equilíbrio ao focar nos cativantes personagens centrais e nas emoções intensas que impulsionam a história. No fim das contas, o filme se destaca graças às atuações excepcionais e ao charme genuíno e despretensioso de Pigossi.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *